As mudanças climáticas são uma realidade

Em 1989 a banda de punk rock paulistana Cólera lançou um álbum com o seguinte título: “Verde, não devaste.” O disco é conceitual e aborda toda uma temática que até então quase não obtinha espaço no que consideramos grandes mídias. O registro da banda aborda o tema da importância da preservação ambiental e também do respeito pelas vidas não apenas dos seres humanos, mas de todas as outras espécies com as quais compartilhamos o planeta Terra. 

A questão do tema do álbum está escancarada em seu título e também na imagem impactante de sua capa, uma verdadeira obra prima que nos convida para uma profunda reflexão sobre o tema que será abordado ao longo de suas 14 faixas.  

Um disco conceitual sobre um tema pouco abordado em um distante Brasil de final de século. O tempo passou, infelizmente Rédson, guitarrista e vocalista da banda, não está mais entre nós, mas a cada novo amanhecer, o álbum da banda, 36 anos depois, torna-se cada vez mais atual. 

E as fortes chuvas que atingiram parte do Estado de São Paulo ao longo dessa semana mostram o quanto estamos vulneráveis e a incapacidade de nossos governantes em lidar com uma situação delicada, complexa, que não é nada parecida com momentos vividos anteriormente e mesmo com todas as informações disponibilizadas por pessoas e entidades que estudam o tema, ainda há governantes que insistem em contrariá-los para dizer que são apenas fenômenos naturais. 

Fenômenos naturais sempre aconteceram e irão acontecer, a questão é que com o desequilíbrio provocado pela ganância de um grupo seleto de pessoas e pelo sistema capitalista que exige consumo exacerbado a qualquer custo, estamos à mercê de que a situações deverão ficar cada vez mais severas. Desmatamento em massa em nome de especulação imobiliária e para expansão do cultivo da monocultura para obtenção de lucro maior e cada vez mais rápido, faz com que fiquemos ainda mais vulneráveis em relação as mudanças. 

Na sexta-feira (24) um forte temporal atingiu vários municípios paulistas, mas desta vez foi a capital que mais sofreu. A mudança climática e a inércia de nossos governantes fizeram com que milhares de pessoas ficassem sem energia, perdessem bens materiais e estiveram com suas vidas em risco. Foi nesse dia que pela primeira vez a Defesa Civil emitisse um “alerta severo” de chuva para o município.  

E a previsão estava correta! Foram momentos angustiantes. Carros sendo levados pelas enxurradas, teto de centro de compras que despencou, pessoas presas e ilhadas em seus veículos e inundações em várias estações de trem e metrô. Tudo isso demonstrou que não estamos nem um pouco preparados para as consequências da mudança climática que deve se agravar cada dia mais. 

E a situação deve ficar ainda pior. Com a posse do novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, negacionista assumido das mudanças climáticas, tudo pode piorar ainda mais, pois o país que ele comanda é o segundo maior poluente e ele prometeu mais investimentos em perfuração de poços de petróleo e irá extinguir programas para financiar medidas para energia limpa em cooperação com os outros países.  

Em nosso país também temos muitos negacionistas do clima e eles também estão no poder, sendo que parte deles foi reeleita há poucos meses mesmo tendo demonstrado total inépcia para os cargos que ocupam. Tudo isso em nome do medo um fantasma de algo que nunca existiu. 

Enquanto uma boa parte de nossa população ainda nutre preconceitos e negam evidências de estuados, todos nós sofremos e devemos sofrer ainda mais em curto e médio prazos. Quando cientistas de todo mundo falam sobre as consequências de iremos sofrer, devemos levar mais a sério e não cair no canto da sereia de pseudomoralistas e pseudocristãos/religiosos que preocupam-se apenas com seus projetos pessoais e não estão nem um pouco preocupados conosco e muito menos com os que virão depois de nós. 

A banda Cólera tinha toda razão em seu disco e ainda em 1989, outra banda punk gravou a música “Amazônia nunca mais”... Essa banda é a Ratos de Porão, mas esse assunto fica para outro dia. Por hora, recomendo que ouça com muita atenção o álbum “Verde, não devaste” e tire suas próprias conclusões. 


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