Qual era o nome daquela canção?
O rádio, ah... como não se emocionar ao ouvir um bom locutor que nos informa a hora certa, as principais notícias do dia, a situação do trânsito ou como está o tempo... e ainda toca aquelas canções que são novidades ou outras que nos remetem a uma tremenda de uma nostalgia e nos faz voltar no tempo e lembrarmos velhos tempos idos, nem todos de glória, obviamente, mas nas lembranças são grandes histórias que não tiveram os famigerados finais felizes, mas que contribuíram para que eu hoje tivesse a ousadia em escrever essas palavras, ou essas mal traçadas linhas, como li algum grande poeta escrever.
O rádio é algo que sempre me encantou desde a mais tenra idade. O encantamento teve início devido as canções apresentadas que sempre traziam algumas histórias que eu não conseguia compreender de maneira alguma... muito provavelmente pela falta de tarimba devido a idade muito precoce. Outros temas me deixavam curioso, principalmente em um programa no qual o locutor narrava histórias inacreditáveis escritas por seus ouvintes.
Mas o que realmente eu mais gostava era a questão de ouvir as partidas de futebol. Não havia jogo ruim pela transmissão do rádio. Mesmo quando o comentarista soltava que a peleja era muito fraca tecnicamente, havia ao fundo o som das torcidas e os narradores, que pareciam ter um fôlego infinito, deixavam um clima tenso e com a impressão de que a qualquer momento teríamos um gol.
E havia também aqueles narradores que faziam metáforas das partidas com peças teatrais e também citações de grandes clássicos da literatura nacional e mundial. Se alguém diz que futebol é falta de cultura, desconfio dela imediatamente, afinal, um garoto pobre, filho de operários, muitas vezes só teve o rádio como uma janela para o mundo. E quando essa janela foi aberta, pronto, foi fácil alçar voo. E o futebol foi uma grande catapulta, sem dúvida alguma. Por causa do futebol eu conseguia notas razoáveis em história e geografia, devido as crônicas feitas pelos narradores antes da bola rolar.
Os narradores esportivos lembravam de fatos históricos, citavam canções, filmes, livros, eram verdadeiros cronistas de nosso cotidiano, enquanto simples mortais duelavam com todas as forças por uma posse de bola e a oportunidade de estufar as redes adversárias.
E era nesse verdadeiro show que uma vez ouvi algum deles dizer uma frase: “um país se faz com homens e livros”. Não me lembro corretamente qual era o contexto para essa frase, mas lembro-me que fiquei com ela por muito tempo em minha cabeça. Cheguei até a anotá-la em um de meus cadernos, pois queria uma explicação da então professora de português.
E assim foi feito. A professora explicou a frase e quem era seu autor. Eu ainda era muito criança, mas costumava ler nas aulas, devido a sua obrigatoriedade. Li quase toda a coleção da série Vaga-Lume. Será que isso é possível? Talvez...
Mas foi na adolescência que a leitura realmente passou a fazer parte de meu pequeno cotidiano. Além do rádio, nesse período passei a ter acesso a discos de algumas bandas de rock brasileiras e devido a algumas letras que eu não conseguia compreender, sempre perguntava aos professores. E eles diziam que alguns desses literatos tinham certa complexidade pois além da opinião do compositor, havia a influência de escritores.
E lá estavam eles, além de serem citados em partidas de futebol que só havia, na maior parte das vezes, emoção devido ao narrador, agora eles chegavam até mim por meio de algumas bandas que eu costumava ouvir. Não demorou muito para eu entender que além do rádio, da música, os escritores também influenciavam o cinema. Como dizia a banda Ira!, “só depois de muito tempo fui entender...” só depois de muito tempo que compreendi que muitas películas eram gravadas com base em algo que havia sido lançado no formato livro.
Então era assim, se eles influenciavam um mundaréu de gente, por que não ir ao encontro dessas pessoas? Óbvio que me iniciei pelos quais tratavam dos assuntos que estavam nas canções que eu acompanhava. A situação financeira era extremamente precária, em muitas situações era preciso escolher: um lanche no colégio, uma poupança para comprar disco ou agora comprar uma obra de um autor que me tirava o sono.
A diferença de um livro para um disco, além de seu formato e como o conteúdo é transmitido até nós, é gigantesca, mas os livros têm um diferencial enorme, ele pode ser emprestado em bibliotecas das escolas ou dos municípios, as famosas bibliotecas municipais, de maneira gratuita. Foi nesse espaço que tive meus primeiros contatos com obras de Albert Camus e Jean Paul Sartre. Esses autores desde então fazem parte de minha formação profissional e de vida.
E lá vem o futebol novamente, mas desta vez fora do rádio. Graças as leituras, tive o conhecimento que Camus era goleiro em sua adolescência na Argélia, mas não seguiu carreira no futebol devido a um problema de saúde. Será que se ele prosseguisse como guarda metas, um dia iria escrever as belas obras com as quais nos brindou? Impossível saber!
Com o avançar do tempo para mim e também para a tecnologia, o rádio se transformou. Além da possibilidade em ouvirmos pelos pequenos aparelhos que são abastecidos por pilhas, eles estavam também na rede mundial de computadores. O alcance tornou-se irrestrito. Algumas rádios só podiam ser captadas em determinadas regiões, mas em algumas noites ou madrugadas, não sei qual era a mágica, se é que era mágica, era possível sintonizar emissoras de outros estados.
Pela maneira de expressar dos locutores era possível notar qual era a região do país de onde se apresentavam, mas havia algo em comum com os radialistas que eu conhecia. Eles falavam sobre as horas, as condições do trânsito, do tempo, os debates sobre uma partida de futebol, canções nacionais e regionais e, claro, sempre havia uma poesia no ar, a citação de algum autor.
E após muito tempo, ao reler e relembrar a famosa frase do saudoso Monteiro Lobato, de que “um país se faz com homens e livros”, pensei que um livro e homens são capazes de fazer mais do que um país. Seres humanos e livros são capazes de apresentar poesia onde não há, em transmissões de partidas de futebol modorrentas em um final de tarde de domingo, em canções que algumas vezes não tive a capacidade de decifrar, nas passagens de um filme pastelão ou simplesmente em um picho no muro de alguma cidade, seja ela pequena, média ou grande.
Além de um país, um livro pode contribuir para a desconstrução e a construção de um novo ser humano, pode ser a magia que falta para a vida de muitos que às vezes pensam estar solitários em meio à multidão. E tudo isso me veio à cabeça por causa de uma canção. E qual era o nome dessa canção? Não consigo me lembrar, talvez eu tenha anotado em algum livro, que hoje talvez esteja na prateleira de um sebo ou na estante de alguém. Que as anotações contribuam para o espanto desse leitor ou leitora, e que as janelas se abram sobre esse ser em sua finita eterna construção.

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