‘Ainda estou aqui’ e o momento da política nacional
Na última semana estive presente em uma sala de cinema para acompanhar o longa “Ainda estou aqui”, dirigido por Walter Salles e que tem como protagonistas Fernando Torres, que interpreta Eunice Paiva, e Selton Mello, como o deputado Rubens Paiva, sem citar a participação de Fernanda Montenegro. O filme é baseado na obra autobiográfica de Marcelo Rubens Paiva, filho de Rubens, engenheiro civil ex-deputado federal pelo PTB, cassado dias após o golpe militar de 1964.
A história tem início na da década de 1970, no Rio de Janeiro, cidade na qual o ex-deputado, vivia com sua esposa e seus cinco filhos. Esse foi o período mais sanguinolento e trágico da catástrofe que foi a ditatura militar. Em um dia dos primórdios daquela década, Paiva foi levado por agentes da aeronáutica e nunca mais retornou para o convívio com seus familiares. Mais de 50 anos se passaram e seus restos mortais ainda não foram localizados. Sua morte foi decretada como oficial décadas depois, após um trabalho incansável de sua esposa Eunice.
Durante o filme, é possível notar a tensão a todo momento no convívio entre as pessoas. A obra tem um ritmo cadenciado, não mostra cenas de tortura, e por incrível que pareça, mesmo sem cenas consideradas muito “fortes”, é angustiante acompanhar os depoimentos e as táticas utilizadas pelos delinquentes fardados, ou não, na tentativa de arrancar “segredos” das pessoas, de cidadãos aos quais eles deveriam proteger.
Relatado em várias épocas, a obra cinematográfica demonstra toda força e coragem de Eunice que jamais abandonou o marido, os filhos e ainda conseguiu reunir forças para fazer justiça em prol da memória de seu esposo e ainda contribuir com a causa indígena.
Ao ver a película, em minha mente vinha apenas a voz do deputado e presidente da Assembleia Nacional Constituinte, o deputado do PMDB, saudoso Ulysses Guimarães, que ao promulgar a Constituição de 1988, disse que deveríamos “sentir ódio e nojo à ditadura”. Ele estava com toda a razão.
É impossível, em sã consciência, defender um regime que matou, estuprou e torturou centenas e centenas de brasileiros e brasileiras. Um regime que destruiu sonhos e nos levou a um retrocesso civilizatório, tudo isso devido a submissão a um país que de se diz o mais democrático do mundo e com “medo” de um fantasma de algo que nunca existiu.
“Ainda estou aqui” mostra a qualidade de nosso cinema, que tem crescido ano a ano, interpretações impressionantes e merecidamente irá concorrer ao Oscar no próximo ano. Além de uma bela obra de arte e importância histórica, a película chega em hora mais do que oportuna, afinal, dias após sua estreia veio à tona uma sequência de denúncias e acusações contra pessoas que apoiaram e desejam o retorno da ditadura em nosso país.
EXÉRCITO
Ao longo dessa semana, muitos de nós brasilianos e brasilianas, acompanhamos estupefatos as denúncias e acusações contra pessoas da alta cúpula das forças armadas e do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) que planejaram a morte de três pessoas no final de 2022, sendo a morte do presidente e vice-presidente eleitos Lula e Geraldo Alckmin, respectivamente, e de Alexandre de Moraes, então presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).
Que Bolsonaro é um dos seres humanos mais ignóbeis da história de nosso país não é novidade alguma, que tentaria um golpe para se perpetuar no poder é, pois é um cidadão que nunca gostou de trabalhar. Ele é tão indolente que conseguiu a proeza de ser expulso do exército e ser desqualificado de maneira pública pelo ditador Ernesto Geisel, algo que só demonstra o quanto ele é um ser para lá de abjeto.
O ex-presidente, que durante a pandemia zombou de doentes, minimizou a gravidade da Covid-19 e é responsável pela maioria das mortes durante a pandemia, é um dos 37 indiciados em ação que investiga o plano de matar lideranças políticas que o derrotaram nas urnas em 2022.
E de volta ao relacionar o filme com os tempos atuais, além de defender a tortura publicamente, que cerca de 30 mil brasileiros deveriam ter sido mortos durante a ditadura, declarar apoio às ações de Brilhante Ustra, outro ser abjeto de nossa história, o maior torturador da época de chumbo, Bolsonaro cuspiu no busto em homenagem a Rubens Paiva, logo após sua inauguração na Câmara dos Deputados.
Com tudo isso, só nos resta enaltecer o trabalho de Eunice Paiva, lembrar o quão importante foi a Comissão Nacional da Verdade, criada no primeiro governo de Dilma Rousseff, e lembrar que os fatos que vieram à tona ao longo dessa semana, pode ser uma nova oportunidade de acertarmos as contas em definitivo com nosso passado golpista.
O que deveríamos ter feito ao final da ditatura e não fizemos, que é criminalizar e punir os golpistas, façamos agora, para que esse passado nunca mais nos assombre e tentemos enterrar de vez toda sanha golpista que nos acompanha há muitas décadas.

Comentários
Postar um comentário