Delírios sobre possibilidades em ser um esquerdista
Daqui a pouco atingiremos a metade da terceira década do século 21 e algumas questões ainda assombram e algumas pessoas exigem respostas para determinadas ações que grupos de seres humanos adotam ou o que o próprio indivíduo adota. Rótulos, assim como em nossa distante juventude, na qual garotos e garotas com espinhas no rosto buscavam de maneira ensandecida fazer parte de um nicho para ter o carimbo, ou a validade de um rótulo.
Décadas de passaram e mesmo na vida adulta, algumas definições ainda podem ser consideradas importantes por alguns grupos sociais. Atualmente, por incrível que pareça, ainda temos o debate sobre o que ser de esquerda ou direita, e qual relação há com o progressismo e o conservadorismo.
Como no início do Dinossauro Banguela a ideia era meter o dedo mindinho em vários assuntos, tentaremos trazer alguma luz à essa discussão, claro que sempre do ponto de vista de quem escreve essas mal traçadas linhas.
Os conceitos de direita e esquerda não são concepções que se encerram em si, tudo pode ser relativo conforme o tempo e também localidade na qual haverá a possível definição. Mas é importante saber que esses termos foram forjados ao acaso, ao final do século 18, durante a Revolução Francesa.
Durante a realização de uma das assembleias, as pessoas mais pobres, ou os denominados pequenos burgueses à época, sentaram-se ao lado esquerdo do presidente, enquanto os mais ricos ficaram à direita, isso grosso modo.
Desde então, os esquerdistas são considerados aqueles que defendem um mundo no qual as pessoas estejam mais próximas umas às outras em condições sociais, os da direita são vistos como os que acreditam na livre concorrência, meritocracia, além de não querer que o Estado regre a sociedade, principalmente na questão econômica.
Mas uma das perguntas mais feitas atualmente por algumas pessoas é: o que é ser de esquerda no século 21? Uma boa definição pode ser a frase a seguir, do economista equatoriano, Alberto Acosta: "Não pode haver crescimento econômico permanente em um mundo com limites finitos. Isso é uma irracionalidade." Mas o que ela tem a ver com a questão? Talvez ser de esquerda seja vislumbrar outras possibilidades, para muito além do capitalismo, pois esse é um sistema que enriqueceu poucos e matou e mata diariamente milhões, é um sistema que exclui e que traz à tona o que de pior o ser humano pode apresentar.
Talvez ser de esquerda hoje ser ir contra as mazelas que vemos em qualquer cidade brasileira, como a falta de moradia digna, falta de oportunidades em serviço essenciais para a sobrevivência humana, a falta de oportunidade que muitos sentem em sua pele todos os dias. Talvez ser de esquerda seja à busca de um olhar para os invisíveis e notar que eles também merecem ter oportunidades.
Como definir algo para um campo tão abrangente seja impossível, alguns pontos podem ser pensados. E quando falamos ou escrevemos sobre a esquerda, penso que seja importante que seja no plural, devido a diversidade de pensamentos que há nesse âmbito.
Mas alguns pontos são muito comuns: que todas as pessoas um dia tenham a oportunidade de não chegarem ao mesmo ponto, mas que elas tenham condições para partirem do mesmo ponto e dessa maneira consigam realizar tudo aquilo que almejam. Que toda pessoa tenha acesso à moradia digna, saúde e educação de qualidade, assim como tenha condições de se alimentar adequadamente.
Talvez o ser de esquerda atualmente não seja se contentar apenas com as migalhas que recebemos, mas sim poder ir à busca de possibilidades outras, que a distância entre as pessoas sejam cada vez menores, que as pessoas não tenham mais que buscar alimentos no lixo ou buscar uma marquise para se abrigar da chuva e do frio.
Que todas as pessoas tenham condições de participar de maneira efetiva de um país realmente democrático, um país que não exclua e sim inclua as pessoas, independentemente de sua origem, credo, não credo, condição sexual. Que todos tenham as mesmas oportunidades para se desenvolverem como seres humanos.
Que as cidades sejam para todas as pessoas, não somente para grupos privilegiados, como é muito comum vermos, principalmente, no interior paulista. Que todos tenham acesso a tudo que uma cidade consiga oferecer, que o trabalho seja digno e não uma grande exploração como temos atualmente.
Talvez tudo isso não passe apenas de utopia, mas como disse o diretor de cinema argentino Fernando Birri: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

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