O ‘terrivelmente evangélico’ mostra sua face


O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, mais conhecido como o “terrivelmente evangélico”, mostra sua verdadeira face ao determinar o afastamento do diretor da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues. É importante ressaltar que Mendonça foi escolhido para o STF pelo então presidente da República, Jair Bolsonaro, justamente em razão de sua proximidade com o segmento evangélico.

Mendonça determina o afastamento do diretor de uma das instituições que mais contribuem para a manutenção de um Estado democrático — ainda que claudicante —, no qual continuam existindo espaços para o exercício da cidadania, o acesso a serviços públicos e a garantia de direitos sociais.

Andrei Rodrigues, à frente da PF, esteve envolvido em diversas ações que culminaram em investigações e prisões de pessoas envolvidas em diferentes esquemas de corrupção. Apesar dos inúmeros problemas apresentados pelo atual governo, uma de suas virtudes é permitir que as investigações ocorram com independência e dentro das instituições responsáveis por conduzi-las.

A situação atual, porém, produz uma impressão difícil de ignorar. Enquanto policiais federais se debruçavam sobre o caso do INSS e o filho do presidente Lula, Lulinha, era alvo de investigações, o diretor da PF parecia ter a aprovação de setores que agora questionam sua atuação. A mudança de discurso ocorre justamente quando as investigações avançam sobre o caso Master, que envolve nomes ligados à extrema direita.

Entre esses nomes está o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro, que teria sido mencionado em um áudio no qual pede mais de R$ 60 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro. Diante desse novo cenário, o diretor da PF passou a ser apresentado por determinados setores como alguém que age de maneira parcial.

O caso, entretanto, vai além de Flávio Bolsonaro. O próprio nome do ministro André Mendonça também aparece relacionado ao banqueiro, acusado de envolvimento em um dos maiores casos de fraude bancária do país. Outro ministro frequentemente citado no episódio é Alexandre de Moraes, cuja esposa presta serviços jurídicos ao banco Master.

Bolsonaristas tentam, de todas as maneiras, promover o impeachment de Moraes, sem êxito, e utilizam inclusive o trabalho de sua esposa para questionar a atuação do ministro. Agora, com a dificuldade de retirar Moraes da jogada e com o próprio nome de Mendonça envolvido em questionamentos relacionados ao caso, o “terrivelmente evangélico” parece assumir uma posição que levanta ainda mais dúvidas sobre seus interesses e sobre aqueles que pretende proteger.

Em vez de permitir que a PF realize seu trabalho, Mendonça prefere criar celeumas e, segundo essa interpretação, interferir no funcionamento de uma instituição fundamental para as investigações. A questão que se coloca é se essa postura está relacionada à necessidade de preservar a própria imagem e a de pessoas próximas, em uma lógica na qual ninguém chega a posições de tamanho poder sem estabelecer alianças e assumir compromissos.

É preciso que Alexandre de Moraes seja investigado sempre que houver elementos que justifiquem uma investigação. Mas o nome que mais preocupa neste momento é o de André Mendonça. Suas recentes movimentações o colocam em uma posição delicada, especialmente porque podem ocorrer em um momento politicamente decisivo, com a proximidade das eleições.

A quem interessa, afinal, o afastamento do diretor da PF neste momento? Quais são os planos da extrema direita para retornar ao poder? E, sobretudo, corremos o risco de deixar de ser um Estado laico para nos transformarmos em um país teocrático?

As declarações e posições de Flávio Bolsonaro também levantam questionamentos sobre o futuro da laicidade do Estado caso a extrema direita volte ao poder. A defesa de um Estado laico não é uma questão secundária: é uma das garantias fundamentais para que diferentes grupos religiosos — inclusive aqueles que não professam nenhuma religião — possam conviver em uma sociedade democrática.

Neste momento, cabe a cada um de nós zelar pelo Estado democrático, mesmo que ele seja claudicante. É preciso evitar que a fragilidade das instituições seja utilizada como caminho para a construção de um governo autoritário, capaz de aprofundar ainda mais as divisões de uma sociedade já bastante combalida.

André Mendonça representa, neste contexto, um motivo de preocupação. Cabe aos seus pares no STF avaliar seus atos e, quando necessário, estabelecer os limites institucionais para impedir que decisões individuais comprometam o funcionamento das instituições democráticas.

Caso contrário, corremos o risco de descobrir, tarde demais, que aquilo que parecia apenas mais uma disputa política era, na realidade, algo muito maior.

Será adeus, Brasil?

Foto: Ton Molina/Estadão Conteúdo

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