Botem os adultos na sala


Há alguns anos, ou décadas, acompanhava semanalmente o programa Rock e Gol, apresentado por Paulo Bonfá e Marco Bianchi, na saudosa MTV. Um dos bordões utilizados por Bonfá era: “Tirem as crianças da sala...”. Isso provavelmente vinha de uma época em que, quando os adultos debatiam assuntos que consideravam pertinentes, colocavam as crianças para dormir, para que pudessem abordar determinados temas sem a participação dos pequerruchos, por não terem condições de lidar com certas circunstâncias.

O bordão é interessante e sempre chama a atenção. Mas, no atual momento em que vivemos, é possível notar uma crise de autoridade entre os adultos. Muitos, devido aos demasiados compromissos profissionais, parecem encontrar dificuldades para exercer o papel de autoridade dentro de seus lares. Isso vale tanto para homens quanto para mulheres. E quem tem sofrido em demasia com essa situação são os milhares de profissionais que diariamente saem de casa para trabalhar com educação.

A escola, até pouco tempo, era sinônimo de um espaço destinado à aquisição de conhecimento em diversas áreas. A educação, porém, as crianças traziam de suas casas. Educação é também aprender a conviver em sociedade. Alguns exemplos são simples: dizer bom dia, com licença, por favor e obrigado. Além disso, é preciso reconhecer que o mundo no qual estamos inseridos nos cerca o tempo todo e que limites são importantes e fundamentais para vivermos em sociedade. Como nos lembra o filósofo francês Jean-Paul Sartre, liberdade e responsabilidade estão intimamente relacionadas. Somos livres, mas precisamos ser responsáveis por cada ato que praticamos.

Destarte, muitos de nós, adultos, passamos a impressão de que esquecemos que um dia fomos crianças e adolescentes e que essa fase da vida é maravilhosa, desafiadora e extremamente assustadora. É uma fase em que não somos nem crianças nem adultos; é como atravessar uma grande correnteza com duas canoas, com um pé em cada. É uma situação delicada, difícil, que exige compreensão, mas também o exercício de uma autoridade que aponte para um possível horizonte.

É nesse momento que os adultos precisam adentrar a sala novamente. Esse espaço atualmente parece estar vazio e, diante disso, passa a impressão para os jovens, que são contestadores por natureza, de que, se ocuparem o que está vazio, poderão fazer o que bem entenderem, sem regras, sem respeito ao próximo. Estariam eles vivendo em uma situação de anomia social?

Pedir que os adolescentes deixem de ser adolescentes é uma estultice. O que precisamos é que os adultos voltem a exercer a função para a qual foram preparados durante a vida, por suas famílias, pela escola e pela própria experiência. Exercer autoridade não é ser autoritário. Estabelecer regras e limites são demonstrações de amor e preocupação. É preciso tratar filhos e filhas como eles são, e não como amigos ou “parças”.

Construir pontes em qualquer tipo de relação é fundamental para o bom convívio social, ainda mais quando existem afetos pelas pessoas próximas. Mas é sempre importante que as regras sejam claras, assim como os limites. Incentivar o questionamento é algo fundamental, mas tão importante quanto isso é apontar que nem sempre haverá as respostas que o interlocutor deseja. Afinal, poucas situações estão sob nosso controle.

Todavia, os adultos precisam lembrar o papel que exercem na sociedade e que o futuro depende de cada um de nós. Somente assim continuaremos a construir uma sociedade diversa, na qual cada indivíduo possa exercer sua individualidade sem que milhares e milhares de pessoas sejam encaminhadas para uma situação de anomia social.

Assim como nós fomos adolescentes um dia e contestávamos toda autoridade, eles também têm o direito de fazê-lo. A nós cabe, porém, demonstrar que toda liberdade pressupõe responsabilidade e que a convivência com outras pessoas impõe limites.

Seu filho e sua filha são lindos para o pai e para a mãe. Para o outro, que não possui qualquer relação com eles, são simplesmente pessoas que também precisam aprender a conviver em sociedade.

Por isso, acredito que talvez os jovens não precisem que seus pais sejam seus amigos. Talvez o que eles mais precisem, nesse momento, seja que os adultos voltem a ser adultos e ocupem seus lugares na sala.

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